Sem título….

08/19/2011

Lembrava das antigas canções e pensava onde as havia deixado que não via mais.

Não faziam mais sentido

Lembrava das botas pesadas e pensava onde haveria guardado aquela velha delicadeza

Lembrava do tempo que jamais tiveram

Das lágrimas derramadas em vão

Lembrava dos dias felizes, dos cigarros compartilhados…

Lembrava daquele cheiro que jamais a incomodou

Lembrava com carinho das longas conversas

Dos duetos

Dos poemas que dividiam

Lembrava com carinho dos beijos na testa

Das discussões por nada

Daqueles antigos amigos…

Lembrava com carinho de tudo que deveria esquecer

De todos que a haviam esquecido

Tudo havia ficado pra trás

Tudo deveria ter ficado pra trás…

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Ela voltou

06/19/2011

Tinha os pés cansados

vontades infinitas…

Voltou pra onde jamais deveria ter saído

encheu o peito e bradou àquele pequeno mundo sua chegada

Aos gritos deu ordens aos olhos

ordenou que aquelas lágrimas escondidas rolassem novamente

E que as mãos, que até o momento se mantinham escondidas nos bolsos voltassem a escrever poemas

Ela voltou

ouviu as novas músicas

experimentou a sensação das velhas drogas

recuperou o domínio da casa

desarrumou a cama

escondeu o coração em um canto e ocupou seu lugar

Ela voltou linda

botas de couro e esmalte vermelho

sedutora como nunca

apaixonada como sempre

naquele momento eram dela

o melhor sorriso

o melhor verbo

o único verso

voltou a observar o mundo com olhos de poeta

Depois de muito tempo

voltou a se encontrar na rima

e a se definir em prosa

Depois de algum um tempo a liberdade volta  e a inspiração retorna ao seu lugar de origem. Depois de um tempo solitário e silencioso o poema volta aos olhos como por milagre. Basta uma palavra, um olhar, um sonho…. Ou apenas a canção certa…

(…)

06/19/2011

 

Naquela noite fria…

queria apenas o silêncio

o abraço

o laço

Queria a verdade

a vontade

aquela velha intensidade

Naquela noite fria

queria o beijo

o cheiro

o acalento

queria a companhia

a saudade….

Queria de volta

a voz no ouvido

o sussurro

a sensação da barba mal feita

o calor daquele olhar

O carinho velado, silencioso…

Naquela noite fria e solitária ela o queria de volta

Sinto falta…

02/14/2011

Do teu jeito, da forma como me olhas e como finge não me ver

Sinto falta da forma como me protege

Dos beijos na testa, do carinho ao amanhecer

Sinto falta das discussões por nada

Dos rompantes por ciúmes que jamais tivemos

E daquele ‘não vamos brigar’

Sinto falta de tudo que nunca fomos ou vivemos

E daquilo que jamais sonhamos…

Sinto falta do frio ao teu lado, das reclamações pelo excesso de calor

De todos os silêncios

Sinto falta da voz no meu ouvido

Da cantoria nas tardes solitárias

Dos duetos…

Do cheiro que mistura perfume e nicotina

Da cannabis que sativas

Das responsabilidades, do medo e da vontade de crescer

Sinto falta de encontrar aquele ‘canto’ contigo

E aquele lugar ‘só nosso ….’

Sinto uma falta imensa de tudo aquilo que jamais foi meu de verdade

De tudo que eu jamais vivi, mas eu sinto falta….

De repente…

11/22/2010

De repente, me veio uma alegria boba

uma lembrança forte e uma vontade louca

De repente, sonhei acordada

Te quis como um delírio

De repente, o poema era a única saída

quis alcançar teu coração que parecia tão distante do meu

De repente, tudo aquilo era bobagem minha

às vezes viajo, crio, invento até o que não existe

De repente, a canção triste encheu meus olhos de lágrimas

me fizeram sentir a distância que nem era tão real assim

De repente, tudo que eu queria era tua voz no meu ouvido

teu corpo colado no meu

De repente, comecei a sentir tua falta

foi tudo rápido demais, não tive tempo de te dizer o que senti

De repente, terminamos sem ter a chance de começar

se tivéssemos começado de um jeito diferente, tudo seria diferente

De repente, é apenas um delírio meu

tua falta de tempo é apenas excesso de trabalho, não uma forma de me afastar

De repente, te vi como um sonho bom

e ainda espero a realidade me surpreender um dia…

Que ame os Beatles e deteste ervilhas…

Um homem que não se importe em virar personagem

Que permita pequenos surtos

Que dê liberdade poética

Procura-se um homem

Que esteja disposto a amores incondicionais

Aos escândalos por ciúmes

À procura constante

Procura-se um homem que não se perca diante do espelho

Que tenha os pés no chão

Mas que deixe o pensamento voar

Procura-se um homem que goste de incensos

Cultive os sabores

Que cultive manias irritantes

Procura-se um homem que tenha cartões de crédito vencidos

Que precise de ajuda com golas

Que deixe escolher as gravatas e organizar as meias

Procura-se um homem que encontre pulgas nos tapetes

E jamais deixe pêlos no sabonete

Procura-se um homem que queira uma mulher perdigueira

Daquelas que demonstram amor cheirando camisas e procurando marcas de batom

Procura-se um homem que queira uma mulher que deixe marcas, arranhões

Que o acorde de madrugada falando baixinho

Que recorde de todas as datas e lembre o local de cada beijo

Procura-se um homem que a beije com a mesma paixão da primeira vez

Que faça com que toda a noite ela sinta como uma primeira vez

Procura-se um homem que seque lágrimas

Segure mãos e aproxime o corpo durante o sono

Procura-se um homem que organize os cd’s  e divida a alegria das raridades

Um homem que goste dos mesmos filmes

Que tenha lido os mesmo livros

Um homem que minta descaradamente quando a mentira agradar

E que busque a perfeição quando resolver dizer verdades

Um homem que demonstre amor de forma pública, exagerada e vândala

Que piche muros e ruas pra dizer o quanto ela é importante

Um homem que ame Willy Wonca e Woody Allen

Que discretamente recrimine as roupas que o enlouquecem

Que repare nas unhas e cabelos

Procura-se um homem de olhos azuis e pensamento verde

Que conheça o céu

Que saiba quando é hora de parar

E que não pare mesmo que ela implore….

Se eu disser que adoro quando os dias vêm em escalas de cinza

Que é em dias assim que lembro como tuas mãos percorreram meu corpo

Vai me chamar de boba…

Se eu disser que acordei pensando no escuro do quarto….

No som da tua respiração

Vai me chamar de boba…

Se eu disser que agora o que resta é uma insegurança

Um medo bobo que me trava e apavora

Vai me chamar de boba

Se eu disser que, pra mim, sexo não pode ser casual

Vai me chamar de boba…

Por ter me concentrado em cada gesto

Metódica e sistematicamente, em uma única noite, decorei cada movimento…

Cada toque…

Vai me chamar de boba, eu sei…

Mas nossos signos combinam perfeitamente

Vai me chamar de boba por ser sentimental…

Por te escrever poemas

Te fazer personagem das minhas historias

E, principalmente, por querer figurar nas tuas…

Vai me chamar de boba…

Por querer atenções no dia seguinte

Por esperar ligações…

Vai me chamar de boba…

Quando eu ligar só pra dizer que acordei pensando naquela primeira vez

Quando eu contar, que de manhã, te procurei na cama

Vai me chamar de boba pela falta de prática…

Mela total falta de métrica…

E por dizer que senti tua falta

Vai me chamar de boba… talvez de louca

Quando a noite te chamar por outros nomes

E de manhã, carinhosa e aninhada no teu braço balbuciar teu nome como criança que pede colo

Vai me chamar de boba…

Quando eu pedir que segure minha mão e seque minhas lágrimas

Vai me chamar de boba

Por pensar duas vezes antes de publicar esse texto

Vai me chamar de boba…

Quando eu te mostrar com vergonha o que escrevi

Vai dizer que sou boba, certamente…

Quando eu jamais tiver coragem de dizer tudo o que é preciso

Antigamente…

08/16/2010

Antigamente eu era eterno. Terno…

Sensível como ninguém… com ninguém!

Antigamente o poema fazia sentido

Vinha fácil…

Antigamente minha arte era vivida, sentida, sonhada…

Antigamente até as drogas eram diferentes, tinham um ritmo diferente

Significados diferentes….

Antigamente o barato estava ali…

Na arte, na pele…

Antigamente o sexo era diferente…

Vinha infantil… apressado… com medo…

Invadia o corpo, mas tinha medo de ser eterno…

Medo de ser real…

Antigamente eu abraçaria o mundo

Teria ele entre os dedos… no meio das pernas

Antigamente viver era mais sinônimo, menos subversão

Quem sabe o contrário…

Antigamente tudo fazia sentido

Antigamente, por mais difícil que fosse ainda era colorido…

Hoje tudo que eu queria era um dos teus cigarros…

Era sentir de novo a delícia da sensação de estar nos teus braços

Era assim… calma e serena no teu abraço que eu era completa, plena…

Patrícia que há muito tempo não conseguia sentar-se diante da tela e escrever, agora não parava de imaginar poemas. Todos sobre aquela noite. Todos sobre aquele homem cujo nem o nome se lembrava. Lembrava como se não tivessem passado nem duas horas de como se sentiu naqueles braços e apenas isso, todo o resto tinha sido varrido de sua memória.

Havia largado as ruas, os programas e as drogas há alguns meses. No inicio manter aquele estilo de vida e resistir as crises e ataques que a abstinência causavam foi difícil, mas o tempo e o crescimento daquela criatividade e inspiração que ela mesma desconhecia a ajudaram a ultrapassar esta fase.

Os primeiros textos eram confusos, desconexos, mas a medida que Patrícia ia se concentrando no que sentia eles foram criando formas mais uniformes. Eram textos, imagens, sentimentos que realmente vinham da alma.  Passava noites em claro, escrevendo em cadernos velhos e páginas amassadas tudo o que sentia tudo o que sabia, mas escrevia principalmente sobre aquilo que poderia ter, sobre as sensações que a rodeavam e sobre os desejos que insistiam em assombrá-la.

Era inverno, e os dias gelados que antecediam as noites insones de Patrícia se tornavam infinitos e enfadonhos. Era a primeira vez que se sentia linda de verdade, talentosa de verdade. A menina pobre que sempre achou que seus únicos talentos eram os da cama agora descobria uma escritora forte e independente. Independente na vida e nas palavras…

Patrícia estava diferente vinha pensando em retornar
à cidade onde nasceu, rever a família, os antigos amigos. Pensava apenas na reação do pai quando a visse, fazia pelo menos dez anos que não colocava os pés naquela cidade, mas agora as coisas mudaram e ela estava decidida. Voltaria ainda naquela noite.

Na pequena cidade o escritor havia perdido totalmente as esperanças de um dia reencontrar aquela menina que havia proporcionado uma de suas melhores noites. Mantinha-se num quarto pequeno e úmido apenas com uma cama e uma cômoda caindo aos pedaços. O dinheiro que ganhava com os poucos artigos que conseguia vende aos jornais da cidade dava apenas para manter os cigarros e o aluguel da espelunca que havia se habituado a chamar de ‘casa’.

Na cidade todos se preocupavam com a amizade e carinho que demonstrava pela pequena irmã de Patrícia. O pai da menina a proibiu de encontrar com ele, a proibiu que lesse seus contos, mas a menina desobedecia e sempre que podia ia vê-lo, ela o ajudava com as roupas sujas e com os textos. Vinha servindo de inspiração ao escritor que ainda não havia tido coragem de perguntar se ela conhecia alguém em Porto Alegre…

Depois de um período sem atualizações o Tudo Dito volta a ativa com os capitulos finais de Avenida da Perdição. Não acompanhou os primeiros capítulos? Então clica aqui 🙂

O escritor já estava se conformando que ir até àquela cidade tinha sido um grande erro, uma imensa perda de tempo. Já haviam se passado seis meses e até agora nenhuma notícia. Estava indo comprar sua passagem de volta à Porto Alegre quando o que aconteceu, naquela tarde chuvosa, o fez renovar as esperanças.

Viu a menina passeando sozinha pelas ruas da cidade e ficou completamente sem ar. Eram os únicos andando por aquelas ruas. A chuva fez com que todos se escondessem em suas casas. Ela não parecia se importar com a chuva de gotas finas e frias. Andava tranquilamente deixando que a chuva fria a refrescasse.

Seria a mesma daquela noite? Parecia um pouco mais jovem apenas… mas eram os mesmos olhos meigos da pequena prostituta que mudou sua vida. Seria uma irmã?

Ficou imóvel observando a menina e sentindo vergonha pela insistência do olhar e por ter pensando que aquela criança poderia ter sido a mesma mulher daquela noite. Observou a menina e sem coragem de falar uma palavra a viu sumir numa esquina que levava aos limites da cidade.

A pequena menina já sabia que encantava os homens daquela cidade, mas o olhar daquele homem com ares de forasteiro a deixou ainda mais envaidecida. Agora sabia que seus encantos eram irresistíveis. Talvez pudesse fazer como a irmã um dia. Mudar-se para a capital e trabalhar como modelo. Desde criança era essa a historia que ouvia dos pais, ou melhor, da mãe, o pai não mencionava o nome de Patrícia e a pequena não entendia por que, afinal de contas era ela quem garantia boa parte do pagamento das despesas da família com as fotos que tirava em Porto Alegre. Jamais tinha visto sequer uma foto da irmã na nova vida, mas sabia que ela era linda e que tinha se tornado rica e famosa.

Sonhava com o dia em quem poderia visitá-la, talvez morar com ela na capital e ter uma vida parecida com a da irmã que quase não conheceu. Era muito jovem quando Patrícia saiu de casa. Sabia apenas que eram muito parecidas. O pai se incomodava com essa semelhança e sempre que comentavam perto dele dizia a mesma frase:

–                      tomara que seja apenas no rosto…

A menina nunca entendeu aquele comentário, mas se sentia bem quando comparavam a beleza dela com a da irmã. Sonhava em sair daquele fim de mundo, viver sua própria vida.  Depois daquele olhar se sentiu ainda mais segura e com vontade de realizar o sonho de viver na capital. Agora sabia que sua beleza não agradava apenas os meninos inexperientes daquela cidade.

O escritor ficou ali, atônito sem saber o que fazer. Agora, tinha certeza que não era a mesma menina, mas certamente eram irmãs. A semelhança era grande demais. Seria impossível não serem parentes. Teve medo de segui-la, poderia assustá-la. Ficou parado, mas desistiu de voltar, precisava de tempo. Precisava aproximar-se dela de alguma maneira. Talvez ela soubesse o que aconteceu com Patrícia…